Entrar no www.ego.com.br
Gastronomia por Roberta Sudbrack
03/09/2007 ..

Fora do ar...



Hoje estou fora do ar, ordens médicas! Pressão acima do normal, típica do ótimo chope do Jobi, mas pouco aceitável para a arterial! Subi a Serra e me refugiei em frente a uma bela lareira na expectativa de que ela baixe e a adrenalina siga o mesmo caminho!

Volto na terça inteira para reabrir os trabalhos da casinha laranja à beira do canal. Enquanto isso divirtam-se na cozinha com um dos pratos mais servidos no Palácio da Alvorada, quando chefiei a cozinha. È uma preparação extremamente simples e aromática, mas repleta de significados. Servíamos sempre acompanhado por uma polenta sólida com queijo pecorino gratinado. Só de falar minha boca fica cheia d´água!

Até!

Frango ensopado com açafrão e milho verde

Para 8 pessoas

Ingredientes

1 frango caipira cortado em pedaços
8 colheres de sopa de azeite de oliva extra-virgem
1 cebola finamente picada
2 dentes de alho finamente picados
3 tomates sem pele e sem sementes cortados em cubos
15 g de açafrão em pó
1 cálice de vinho branco seco
3 espigas de milho verdes cortadas em rodelas
1 l de caldo de frango caseiro
1e ½ espiga de milho verde debulhada
sal
pimenta-do-reino moída na hora

Modo de preparo

Tempere o frango com o sal e pimenta do reino moída na hora.
Doure os pedaços de frango no azeite, de preferência em panela de pedra ou ferro.
Retire o frango e o excesso de gordura e doure a cebola e o alho.
Acrescente os tomates e refogue um pouco mais. Junte o açafrão diluído no vinho.
Acrescente os pedaços de frango e o milho em rodelas e junte o caldo de frango quente até cobrir o frango. Acrescente sempre que necessário mais caldo quente e cozinhe em fogo médio até o frango ficar macio.
Bata o milho debulhado no liquidificador com um pouco de água e passe por uma peneira.
Na hora de servir, corrija o tempero e acrescente o milho batido. Misture devagar em fogo baixo e sirva logo.

Até!
05/09/2007 ..

Último Romântico...



Seu nome é Zé Belo. Ele é altivo, pele curtida pelo sol e vende um dos melhores milhos da região serrana. Comprei uma vez, pois estava órfã do milho da Fazenda Cafundó - que é igualmente fantástico - e fiquei fã. Sempre que posso, passo novamente pelo lugar onde o encontrei pela primeira vez, a procura do bom milho do Zé Belo. São os únicos milhos, o dele e o da Fazenda Cafundó, propícios para preparar a minha pescada dourada em compota de milho doce.

Da primeira vez comprei dez espigas, da segunda, trinta. Ontem, duzentas! Foi a primeira vez que vi o sorriso do Zé Belo! Acabamos estreitando mais os nossos laços de afetividade também. Pudera. Ele mal conseguia acreditar que o seu dia de trabalho estaria ganho às 10 da manhã! Ele continua mal sabendo quem eu sou, mas a nossa relação de confiança e parceria já existe, o que fez com que ele se apresentasse quando estava indo embora e dissesse: “Sou o Zé Belo, estou aqui há dez anos, quando precisar é só parar!”.

Falando em laços de afetividade nessa relação de consumidor e produtor, acredito não haver nada mais importante. Dependemos disso, nós, o produto e o produtor. Tento ter uma relação muito próxima com os meus fornecedores, menos até do que gostaria se parar para pensar, pois se pudesse, faria questão de visitar e tomar café preto coado em coador de pano com cada um.

Infelizmente, em razão dessa afetividade necessária a esse tipo de relação, algumas vezes acabamos nos envolvendo mais do que imaginamos e até sofrendo mais do que esperamos! Noutro dia descobri que não poderia mais comprar de um fornecedor – justo a Fazendo Chá do Cafundó - por motivos alheios à minha vontade, mas os quais eu compreendi perfeitamente. Não sem espernear um pouquinho, na tentativa de que pudesse reverter a situação, mas não foi possível e acabei tendo que aceitar. Sou artesã, meu trabalho é pequeno, detalhista, minucioso, não posso me dar ao luxo de perder essa característica. Além disso, tenho que dividir os meus pedidos entre os meus fornecedores, para que ninguém se sinta menos importante nessa construção!

Tudo seria muito mais simples se eu não tivesse uma relação com esse fornecedor, mais ou menos como a do milho com o solo! Esse tipo de relação é visceral, intensa e apoiada em raízes. Coisas que estão intrinsecamente ligadas ao artesanato e a sobrevivência dele nesse mundo moderno quase movido a nitrogênio líquido. São detalhes, hoje percebo, muito pequenos e românticos para sobreviverem nesse mesmo mundo. Apesar disso, detalhes como esses produzem igualmente efeitos maravilhosos, como presenciar o telefonema do nosso pescador de dentro do seu barco, eufórico porque conseguiu pescar cinco, apenas cinco, robalos, de menos de 1kg cada um! Peixes tão especiais e delicados, que assim que eles batem os olhos sabem exatamente quem irá dar o devido valor.

Como diz o meu querido Lulu Santos: “Talvez eu seja o último romântico dos litorais desse oceano atlântico...”

Até!
2000-2006 Globo.com. Todos os direitos reservados.